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O Culto ao Sagrado Coração de Jesus
As palavras do profeta Isaías, “tirareis água com alegria das fontes da salvação” (Isaías 12,3), que dão início à encíclica com a qual Pio XII recordava o primeiro centenário da extensão a toda a Igreja da festa do Sagrado Coração de Jesus, não perderam nada de seu significado hoje...
O significado mais profundo desse culto ao amor de Deus só se manifesta quando se considera mais atentamente sua contribuição não só ao conhecimento, mas também, e sobretudo, à experiência pessoal desse amor na entrega confiada a seu serviço (cf. encíclica “Haurietis aquas”, 62). Obviamente, experiência e conhecimento não podem separar-se: um faz referência ao outro. Também é necessário sublinhar que um autêntico conhecimento do amor de Deus só é possível no contexto de uma atitude de oração humilde e de disponibilidade generosa. Partindo dessa atitude interior, o olhar posto no lado transpassado da lança se transforma em silenciosa adoração. O olhar no lado transpassado do Senhor, do qual saem “sangue e água” (cf. Gv 19, 34), nos ajuda a reconhecer a multidão de dons de graça que daí procedem (cf. encíclica “Haurietis aquas”, 34-41) e nos abre a todas as demais formas de devoção cristã que estão compreendidas no culto ao Coração de Jesus.
A fé, compreendida como fruto do amor de Deus experimentado, é uma graça, um dom de Deus. Mas o homem poderá experimentar a fé como uma graça só na medida em que ele a aceita dentro de si como um dom, e procura vivê-lo. O culto do amor de Deus, ao que convidava aos fiéis a encíclica “Haurietis aquas” (cf. ibidem, 72), deve nos ajudar a recordar incessantemente que Ele carregou com este sofrimento voluntariamente “por nós”, “por mim”. Quando praticamos este culto, não só reconhecemos com gratidão o amor de Deus, mas continuamos nos abrindo a esse amor, de maneira que a nossa vida vai ficando cada vez mais modelada por ele. Deus, que derramou seu amor “em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (cf. Romanos 5, 5), nos convida incansavelmente a acolher seu amor. O convite a entregar-se totalmente ao amor salvífico de Cristo (cf. ibidem, n. 4) tem como primeiro objetivo a relação com Deus. Por esse motivo, esse culto totalmente orientado ao amor de Deus que se sacrifica por nós tem uma importância insubstituível para nossa fé e para nossa vida no amor.
(Carta do Papa Bento XVI sobre o culto ao Coração de Jesus, dirigida ao Padre Peter-Hans Kolvenbach, Prepósito Geral da Companhia de Jesus
no qüinquagésimo aniversário da Encíclica “Haurietis aquas” - 2006)